04 Abril 2026
Porque escolhi a Albânia
Escolher a Albânia para uma semana no final de maio foi uma decisão simples e cheia de significado. Em 2024 começava a ouvir-se falar neste destino, especialmente junto dos Millennials e Geração Y, por ser um país com praias de água azul cristalina e budget-friendly. Para mim, pessoalmente, tinha outra questão interessante: era um país fora da União Europeia, o que me dava alguma sensação de "aventura" para primeira viagem com uma doença que ainda estava a aprender a lidar, mas que também considerava próximo o suficiente da cultura e território geográfico. E claro, a viagem foi marcada nos dias entre intervalos de tratamento mensal.
Receios antes de viajar
No momento em que estava a marcar a viagem, senti um sentimento bem misto. Estava mais que feliz de finalmente ir espairecer um pouco daquilo que considero terem sido os últimos meses mais difíceis da minha vida mas também estava apreensiva. E se algo não corresse como esperado? Se tivesse um surto? Se tivesse um surto, saberia ler os sinais do meu corpo? O que faria num país diferente? Como ia lidar com o calor? Toda esta informação gerava dúvidas. Ainda assim, decidi olhar para a viagem como uma oportunidade de sair da rotina e descansar. Também ia com o contacto do hospital onde sou seguida em Portugal, caso houvesse alguma urgência, o que me tranquilizou, de alguma forma. A única indicação que tive, para o destino, por parte da Consulta do Viajante, foi para ter atenção às carraças, que se podem encontrar mais facilmente no interior do país, em locais no meio da natureza. Uma vez que a ideia era fazer a costa, não houve nenhum alerta médico. Ouro sobre azul!
Roteiro: Conhecer a costa
A Albânia foi uma agradável surpresa! Bastante rico culturalmente e com muita diversidade nas suas paisagens, foi tudo o que precisei. Um ambiente leve e simpático para os turistas, em que se notava que estavam a sentir um grande aumento na procura do país enquanto destino. Veem-se construções por todoooo o lado, a meio, a iniciar, mal acabadas, tudo!! Tivemos a sensação de um país em construção para o turismo. Mas vamos por partes.
Aterrámos na capital, Tirana, que não visitámos, e decidimos alugar um carro para descer a costa. Iniciámos a jornada em Durrës e passámos por Vlorë, Sarandë, com a última paragem em Ksamil. Tal como fazemos na grande maioria das viagens, decidimos explorar e marcar hotéis dependendo o que considerávamos da vibe dos sítios onde passámos. Sempre que achámos o local interessante, pernoitámos. Perto de Sarandë, vistiámos a Fortaleza de Girokastër, que aconselhamos muito! Mas definitivamente fica cada vez mais bonito à medida que nos vamos aproximando de Ksamil. Encontrámos as paisagens que estávamos à espera, mais longe das praias de "betão" mais citadinas e com menos construção em altura perto das praias. À medida que vamos descendo, vamos identificando mais o estilo grego na arquitetura e paisagens, o que é muito bonito.
Esta estratégia de agendamento dos hotéis à medida que vamos viajando, traz uma maior incerteza quanto ao nosso conhecimento dos locais de saúde ou hospitais da zona, caso necessitemos de os visitar em caso de alguma urgência. Senti-me um pouco ansiosa quanto a isso mas também achei que, se fosse mesmo necessário, no espaço de 1 dia conseguíamos chegar à capital, onde certamente se encontram as melhores condições de assistência.
Por outro lado, também só foi possível fazê-lo porque ainda não é considerada época alta. Há hotéis bons disponíveis e os preços ainda estão super ok. Em junho e nos meses de verão, o caso muda bem de figura.
A coroa de ouro da viagem: Ksamil
Acabámos por passar 5 dias em Ksamil, considerada a Riviera da costa albanesa, e vale muito a pena. A vibe das praias e bares de praia e especialmente os pôres do sol remetia-nos, de certa forma, para Bali, que visitámos em 2023. Se algum dia decidir voltar a este destino, sem dúvida que será este o local. E o caminho para lá é só incrível, com muitas paisagens de montanhas, natureza e pequenas localidades pitorescas! Senti que a comida era segura e o ambiente também. No final de maio já apanhamos temperaturas de verão, entre 25 a 33°C, um calor bastante intenso, estilo Algarve no pico do Verão. Foi o derradeiro teste no que diz respeito à minha reação ao calor (para quem não sabe, o calor pode ser bastante mal tolerado pelas pessoas que vivem com esclerose múltipla, dado que pode potenciar algumas das sensações relacionadas com a doença que, no meu caso seria, sem dúvida, as vertigens ou os formigueiros na parte inferior das pernas).
Ksamil presenteou-nos com os melhores e mais coloridos pores do sol. Tdos os dias tivemos direito a um espetáculo de cinema ao vivo, com as cores mais vividas possíveis!
Como foi viajar com esclerose múltipla
A minha experiência acabou por ser melhor do que o que imaginei. Não senti qualquer reação ao calor. À medida que fui tendo mais confiança fui arriscando e expondo-me mais um pouco nos horários de calor sem nunca ter qualquer sensação que me fizesse lembrar a minha doença.
Uma viagem muito boa, sem nenhuma situação a registar! Nesta viagem, a esclerose múltipla ficou apenas na minha cabeça - e isso fez toda a diferença. Esta viagem deu-me a confiança necessária para continuar a planear umas férias daqui em diante.
12 Fevereiro 2026
Quero pedir-vos desculpa pelo pessimismo do artigo anterior mas, dado que o objetivo é partilhar a minha história pessoal, não podia passar diretamente para a melhor parte e em que este assunto se encontra mais resolvido. Isto é uma jornada e os primeiros tempos não são fáceis. A emoção e as informações são muitas e mais parece que nunca vamos conseguir viver com tudo isso. Mas vamos! :) Vamos viajar com esclerose múltipla (EM).
(...)
Depois destas notícias conturbadas, conversei com o meu namorado e fazia-nos todo o sentido começar a pensar viajar para algum sítio. Viajar com esclerose múltipla (EM) para um destino mais fácil, ainda assim não imediatamente para o país vizinho. A ideia seria gerir estas sensações e dar algum grau de "normalidade" face ao que tínhamos vivido nos últimos meses. Descomprimir.
Na consulta de Doenças Infecciosas, que nós que tomamos imunosupressores temos de ir no início do diagnóstico e perceber que cuidados e precauções temos de ter, decidi questionar a médica sobre a parte da consulta do viajante, dado que é dada no mesmo serviço. Ela sorriu e disse que faria todo o sentido agendar com o devido médico, que não era com ela.
Abro um grande parêntesis para vos dar uma informação útil:
Esta médica das Doenças Infecciosas disse-me que podia ter feito a vacina contra a febre amarela antes de iniciar o tratamento. No meu caso, vá-se lá saber o porquê de não a ter tomado e já ter viajado tanto. Até já me tinha sido receitada mas, por acaso, nunca a tinha tomado. Inclusive antes da minha viagem a Bali em 2023.
Estes textos podem parecer muito confusos mas quero mesmo mostrar-vos a confusão que foi o meu processo todo, para não acharem que foi só convosco! Entretanto atenção porque na consulta seguinte que tive com a minha médica de Doenças Desmielinizantes - que é coordenadora da área - questionei sobre a vacina da febre amarela. Segundo ela, não a devemos tomar nem antes (depois de diagnosticada a EM) nem depois de iniciar o tratamento, dado que há estudos que sugerem que pode provocar surtos. Que caso necessitemos de algum dia viajar para um país em que seja necessário essa vacina, é possível mas que tem que ser feita uma avaliação e gestão cuidadosa com o médico que vos acompanha.
Muita atenção pois entre áreas médicas existe alguma entropia e os profissionais não têm informações específicas sobre a esclerose múltipla (EM).
Finalmente, a minha consulta do viajante!
O médico foi muito simpático e foi o único que aligeirou e tirou a pressão sobre viajar com esta doença e, especialmente como pessoa que vive com um tratamento de imunosupressão. Disse que é compatível, temos de planear melhor as viagens, saber exatamente onde vamos estar e evitar estar mais no meio de florestas tropicais e acampar, só para não corrermos o risco de contrairmos realmente alguma infeção mais grave. Disse "és nova, tudo é possível e a vida serve para ser vivida o melhor que conseguirmos. Não faz sentido abdicar de parte de nós. Mais tarde, quando fores mais velha, aí talvez sejam precisos alguns cuidados adicionais mas, por agora, a gestão do tipo de viagens é suficiente. E claro, talvez evitar alguns destinos, nomeadamente os que têm febre amarela.". Com o natalizumab - Tysabri - temos apenas de garantir que fazemos o tratamento presencial no hospital dentro do timing que foi definido, que no meu caso é mensal. Ou seja, as viajens têm de acontecer entre os intervalos do tratamento.
Podem sempre consultar os destinos em que é necessária a vacina da febre amarela no CDC - Yellow Book. Outro site que me foi recomendado para procurar informação dos destinos quando quero viajar foi o NHS Inform.
Cheguei da consulta com uma leveza enorme. Tinha-me sido devolvida confiança e podia continuar a explorar as minhas viagens, por aqui e por ali. Com algumas limitações e cuidados que não tinha antes, é certo. Mas ainda assim com liberdade para "me continuar a mexer". A partir daqui devo confessar que foi tudo mais fácil e decidi focar-me no que ouvi.
Nós realmente somos os mestres de como decidimos encarar o que nos acontece. Podemos escolher olhar para as limitações, para os entraves, as dificuldades e os nossos medos ou podemos escolher olhar para o que temos de adaptar para fazer o que gostamos e ser a nossa melhor versão. O mindfulness e a formação internacional que estava a tirar nesta área deu-me uma ferramenta muito importante, a de olhar para o todo e perceber o que nos faz mais sentido, tomando uma escolha consciente. É muito fácil deixarmo-nos levar pelas coisas negativas...
Mas isto para dizer, que marquei a minha primeira viagem, na qual levava na bagagem a esclerose múltipla. 😱😱😱
Curiosos com o destino?
26 Janeiro 2026
Com o passar dos dias, enquanto as dúvidas sobre a esclerose múltipla (EM) iam sendo esclarecidas e solidificadas, começaram a surgir as questões relacionadas com o impacto que a doença poderia ter no dia-a-dia. Tal como muitas das doenças autoimunes, é muito incerto o impacto e a progressão que a doença pode ter. Comecei a pensar, obviamente em questões como gravidez e viagens... Na verdade foram os tópicos que se vieram a tornar mais relevantes. Sobre a gravidez conseguiram esclarecer-me rapidamente e deixar-me minimamente tranquila, já que nem a doença, nem os tratamentos (dentro das várias opções existentes), afetam a fertilidade ou impedem uma gravidez.
Mas nas viagens, a história foi bem mais atribulada... Primeiro, a médica de doenças desmielinizantes que me acompanhava na altura do diagnóstico, foi terrível na desmistificação do tema. Ouvi em consulta, à medida que ia apresentando questões, que ia ter de adaptar muito os destinos de viagens e que não indo para longe, seria importante optar por países europeus.
(Longa pausa)
Internamente colapsei ao ouvir isto. Não é que não goste dos países europeus, há destinos lindíssimos e também gosto muito de fazer este tipo de viagens. Mas, quer dizer, eu vivo para viagens longínquas que me conferem algum tipo de adrenalina. Conhecer paisagens e pessoas completamente diferentes da minha cultura mexe comigo de forma muito positiva, dá-me folgo durante o ano. Sinto que consigo desligar completamente do trabalho e dos afazeres do dia-a-dia e que saio destas experiências mais rica e mais tolerante comigo e com os outros. Aquela abordagem da médica com a minha idade, pareceu-me altamente ofensiva e quase um ataque à minha identidade. Não havia verdadeiramente uma opção B, tinha que me contentar com cidades na europa e ainda tinha sempre de conjugar com o tratamento que me foi prescrito (natalizumab, um imunossupressor. Esta é uma parte importante pois significa que somos imunossuprimidos, o que faz com que fiquemos mais suscetíveis a apanhar doenças e vírus, dado que o nosso sistema imunitário deixa de ser tão eficaz. E eu entendo isto e que tenhamos de ter alguns cuidados).
Confesso que chorei, ainda durante alguns dias. Cheguei a casa e comecei uma pesquisa no senhor Google para procurar informação sobre o tema dos destinos e das limitações de viajar com esclerose múltipla (EM), o que tinha de ter em consideração e cuidados a ter... Não encontrei nada de jeito! Apenas poucas recomendações sobre evitar calor, descansar, saber que se tivesse um surto teria de me dirigir a um hospital. Mas nada sobre se podemos ou não almejar viajar para destinos na Ásia, América do Sul e África, se havia alguma limitação tangível.
No tratamento seguinte decidi questionar as enfermeiras do Hospital de Dia, que são sempre umas queridas, pois achei que iam ter informação mais animadora. A única coisa que obtive foi "soube de um caso de uma doente que foi viajar para um destino na Ásia, apanhou uma bactéria na piscina do hotel e não conseguiu gozar das férias dela porque ficou muito mal e a antibiótico. O melhor é não arriscar, é preciso ter muito cuidado. E ir para piscinas para vocês pode ser perigoso longe de casa". Fiquei num estado mental negativo, do qual tentava sair. Já ia nervosa para aqueles que seriam os primeiros tratamentos, e fiquei muito pior depois disso. Senti-me limitada por uma doença, não podia mais ser quem era. Tinha de enterrar o antigo eu e juntar pedaços que não eram possíveis de juntar para criar um novo "eu". Não gostei do que estava a sentir. Não estava a saber lidar com isso. Já bastava ter de lidar com possíveis sintomas e evoluções da doença. E destas questões é difícil conseguir escapar. Ainda tinha de pensar deixar de fazer o que tanto gosto e que nem podia considerar colocar um pé em piscinas...
(A continuar)
Não desanimem, prometo que vai melhorar no próximo artigo :)
13 Junho 2025
Como qualquer início de um diagnóstico de uma doença, esta não é uma história muito animada. por isso faço questão de contar a versão mais curta dado que o objetivo é falar sobre viajar com esclerose múltipla (EM).
Tudo começou com alguns sintomas, que se foram arrastando por cerca de 3 meses. As vertigens foram o que verdadeiramente me impactaram e me levaram a fazer inúmeros exames de otorrinolaringologia, por achar que podia estar relacionado com algo nos ouvidos. Pois bem, a Ressonância Magnética e a punção lombar, confirmaram que era tudo do sistema nervoso central, Esclerose Múltipla, portanto. Que bom!
Poupo-vos dos pormenores tristes e semanas e semanas de uma profunda inquietação e desânimo derivado de toda a incerteza do diagnóstico de Esclerose Múltipla.
Queria dar um pequeno contexto do meu diagnóstico mas esta página não é sobre o diagnóstico e doença – pois para essas têm muitas como a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (partilho abaixo alguns sites e links caso vos sejam úteis) – e sim, sobre como levar a vida para a frente e continuar a fazer uma das coisas que mais amo fazer – VIAJAR! Tenho a certeza que muitos se identificam desse lado.
Sempre viajei muito. Nasci no Canadá, vivi na Alemanha e, por isso, a descoberta de mundos e culturas diferentes da minha sempre fizeram parte do meu ADN. E com início do tratamento imunosupressor e a questão dos surtos, foram logo muitas as minhas dúvidas sobre o que era preciso fazer antes de viajar, o que podia fazer... Tem sido uma jornada bastante desafiante esta, de saber mais informação sobre para que países posso viajar e sobretudo, que vacinação posso ou não fazer e que cuidados a ter.
A minha intenção é partilhar a minha jornada de descoberta de como tive de me adaptar (ou até de ter batido o pé) e de todo o processo até ter informação sobre como viajar, para que países e com o que ter cuidado. E quem sabe, ajudar pessoas que estão com as mesmas questões do que eu.
Isso e partilhar os destinos que vou fazer a partir daqui. e já fiz uns beeeem bons que estavam na minha bucket list: Indonésia, Vietname, Camboja, Laos, Malásia, Islândia… Este último seria o menos complicado, pelo que tenho percebido.
Sobretudo, quero continuar a ser eu própria nesta vida que é minha e de mais ninguém. Claro que tenho que ter em conta todas as informações do que é melhor para mim e para o controlo da minha doença mas não me metam numa jaula com janelas, por favor. A vida é para continuar a ser vivida igual ou melhor e tenho a certeza que muitos concordam com esta visão. Até porque felizmente vivo exatamente igual a antes do diagnóstico, sem tirar nem pôr. Sei que a doença tem muitas formas e feitios mas a minha, para já, é assim.
Prometo contar tudo, tudo desta caminhada. E quem sabe inspirar mais pessoas a abrir horizontes!
Links para sites úteis e credíveis com informação sobre a Esclerose Múltipla:
Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla – SPEM
Associação Nacional de Esclerose Múltipla – ANEM
Associação Todos com Esclerose Múltipla – SEM